Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clarice Lispector. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Água Viva



(...)Paisagem onde se passa essa música?
Ar, talos verdes, o mar estendido, silêncio de domingo de manhã.
Um homem fino de um pé só
tem um grande olho transparente no meio da testa.
Um ente feminino se aproxima engatinhando,
diz com voz que parece vir de outro espaço,
voz que soa não como a primeira voz
mas em eco de uma voz primeira que não se ouviu.
A voz é canhestra, eufórica
e diz por força do hábito de vida anterior:
quer tomar chá?
E não espera resposta.
Pega uma espiga delgado de trigo de ouro,
e a põe entre as gengivas sem dentes
e se afasta de gatinhas com os olhos abertos.
Olhos imóveis como o nariz.
É preciso mover toda a cabeça sem ossos
para fitar um objeto. Mas que objeto?
O homem fino enquanto isso adormeceu sobre o pé
e adormeceu o olho sem no entanto fechá-lo.
Adormecer o olho trata-se de não querer ver.
Quando não vê ele dorme.
No olho silente se reflete a planície em arco-íris.
O ar é de maravilha.
As ondas musicais recomeçam.
Alguém olha as unhas.
Há um som que de longe faz: psiu! psiu!...
Mas o homem-do-pé-só nunca poderia imaginar
que o estão chamando.
Inicia-se um som de lado,
como a flauta que sempre parece tocar de lado -
inicia-se um som de lado
que atravessa  as ondas musicais sem tremor,
e se repete tanto,
que termina por cavar com sua gota ininterrupta a rocha.
É um som elevadíssimo e sem frisos.
Um lamento alegre e pausado e agudo
como o agudo não estridente e doce de uma flauta.
É a nota mais alta e feliz
que uma vibração poderia dar.
Nenhum homem da terra poderia ouví-lo
sem enlouquecer
e começar a sorrir prá sempre.
Mas o homem-de-pé sobre o único pé -
dorme reto.
E o ser feminino estendido na praia não pensa.
Um novo personagem atravessa a planície deserta
e desaparece mancando.
Ouve-se: psiu! psiu!
E chama-se ninguém. (...)

Clarice Lispector

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Flores

Quero pintar uma rosa.
Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado.
Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirado toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo.


As encarnadas são de grande sensualidade.


As brancas são a paz do Deus.


As amarelas são de um alarme alegre.


As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência.


As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.


Já o cravo tem uma agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal.
Os cravos vermelhos berram em violenta beleza.


A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.



A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego que dizer: sol de ouro.


A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil.


A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.


Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.


Flor dos trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores.


Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com o seu cheiro tonteador. Dama-da-noite é silente. E também da esquina deserta e em trevas dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém aguenta. Mas eu aguento porque amo o perigo.


Quanto à suculenta flor de cactus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica.


Estou com preguiça de falar de edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentos metros de altitude. É branca e lanosa. Raramente alcançável: é a aspiração.


Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme e até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico: o dinossauro das flores. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosa e simples. E apesar de viverem no nível das águas elas dão sombra.


O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeledamente controla a própria selvageria. 

Clarice Lispector

terça-feira, 18 de maio de 2010

Das Vantagens de Ser Bobo



O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus? "Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor.
E só o amor faz o bobo.
Clarice Lispector

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CAVALO PRETO


Existe um ser que mora dentro de mim
como se fosse casa dele, e é.
Trata-se de um cavalo preto e lustroso
que apesar de inteiramente selvagem
– pois nunca morou antes em ninguém
nem jamais lhe puseram rédeas nem sela
– apesar de inteiramente selvagem
tem por isso mesmo uma doçura primeira
de quem não tem medo:
come às vezes na minha mão.
Seu focinho é úmido e fresco.
Eu beijo o seu focinho.
Quando eu morrer,
o cavalo preto ficará sem casa
e vai sofrer muito.
A menos que ele escolha outra casa
e que esta outra casa não tenha medo daquilo
que é ao mesmo tempo selvagem e suave.
Aviso que ele não tem nome:
basta chamá-lo e se acerta com o seu nome.
Ou não se acerta,
mas, uma vez chamado
com doçura e autoridade ele vai.
Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre,
ele trota sem ruído e vai.
Aviso também
que não se deve temer o seu relinchar:
a gente se engana e pensa
que é a gente mesma
que está relinchando de prazer ou cólera,
a gente se assusta com o excesso de doçura
do que é isto pela primeira vez.


Clarice Lispector